
Falar de leitura em CHE GUEVARA é falar do coração invisível de sua formação. Antes de ser guerrilheiro, antes de ser ministro, antes de se tornar símbolo mundial, ele foi, sobretudo, um leitor voraz. Um homem que carregava livros na mochila com o mesmo zelo com que carregava medicamentos ou mapas.
Se ouvirmos Jorge Castañeda, veremos um CHE moldado pela inquietação intelectual. Em sua biografia, Castañeda destaca que o jovem Ernest, asmático e introspectivo, passava horas mergulhado em poesia e filosofia. Não lia apenas por curiosidade, lia para compreender o mundo e, mais ainda, para transforma-lo. Em sua casa, na Argentina, a biblioteca era vasta. Ali ele transitava entre Pablo Neruda, Federico Garcia Lorca, Sigmund Freud e Karl Mark com a mesma naturalidade com que outros jovens transitavam entre jogos e distrações.
Para Castañeda, essa formação literária e teórica explica o CHE analítico, o homem que não aceitava respostas fáceis. Ele não foi apenas um revolucionário de ação, foi um revolucionário que refletia o que escrevia, que estudava economia política com rigor quase obsessivo quando ocupou cargos no governo de Fidel Castro. A leitura, nesse sentido, era disciplina. Era ferramenta de construção histórica.
Já Jon Lee Anderson, que percorreu arquivos e testemunhos ao redor do mundo para compor - sua biografia, enfatiza algo ainda mais íntimo: CHE lia como quem respira. Durante a travessia pela América Latina, carregava livros mesmo quando o peso era inimigo. Na Selva Boliviana, em condições extremas, ainda mantinha cadernos de anotações e referências literárias.
Anderson descreve um homem que sublinhava versos, que copiava trechos, que escrevia reflexões nas margens. A poesia não era um adorno, era alimento espiritual. Ele recitava Neruda aos companheiros, discutia política internacional a luz de literaturas recentes e estudava ciências e sociologia com a mesma intensidade com que treinava táticas de guerrilhas.
Ambos os biógrafos convergem num ponto essencial: a coerência entre pensamento e ação. CHE não via separação entre arte e política, entre ciência e revolução. Para ele, compreender as estruturas econômicas era tão importante quanto compreender a alma humana. A sociologia explicava as desigualdades: o poeta explicava a dignidade.
A leitura foi sua escola permanente. Foi o espaço onde amadureceu sua visão crítica do imperialismo, onde construiu sua ética austera, onde alimentou seu idealismo. Mesmo seus adversários reconhecem: CHE era um intelectual armado não apenas de fuzil mas de livros.
Talvez por isso sua figura continue a provocar debates. Porque ele não foi apenas imagens: foi reflexo. Não foi apenas gestos: foi estudo. E, como mostram Castañeda e Anderson, antes de se tornar mito, CHE foi um jovem que acreditava que os livros podem ensinar a mudar o mundo, e que a transformação verdadeira começa na mente.
JORGE FALCÃO
CHICO TORQUATO
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