Poucos jogadores brasileiros conseguiram unir talento, irreverência e personalidade de maneira tão marcante quanto Francisco das Chagas Marinho, eternizado no futebol como Marinho Chagas. Dono de um estilo ousado, de cabelos loiros inconfundíveis e de uma vocação ofensiva incomum para sua posição, tornou-se um dos maiores atletas da história do Rio Grande do Norte e um dos laterais-esquerdos mais influentes do futebol brasileiro na década de 1970.
Marinho nasceu em 8 de fevereiro de 1952, no bairro do Alecrim, em Natal. Filho caçula de uma família humilde com nove irmãos, cresceu enfrentando dificuldades, mas encontrou no futebol o caminho para transformar sua realidade. Desde cedo chamava atenção pela velocidade, pelo domínio de bola e pela coragem de atacar, características que mais tarde ajudariam a redefinir a função do lateral-esquerdo no país.
Sua trajetória começou no modesto Riachuelo, de Natal. O talento do jovem logo chamou a atenção, abrindo portas para sua ida ao ABC em 1969. No ano seguinte, participou da campanha que devolveu ao clube o título do Campeonato Potiguar, encerrando um jejum de três temporadas e iniciando sua ascensão no futebol nacional.
As grandes atuações o levaram ao Náutico, em Pernambuco. Foi no Timbu que Marinho consolidou a fama de lateral moderno. Enquanto a maioria dos defensores permanecia presa ao setor defensivo, ele avançava constantemente ao ataque, driblava, cruzava, finalizava com potência e se destacava como especialista em cobranças de falta. Seu chute forte lhe rendeu o apelido de "Canhão do Nordeste", enquanto seu estilo ofensivo começava a despertar o interesse dos grandes clubes do eixo Rio-São Paulo.
Em 1972, transferiu-se para o Botafogo, clube onde viveria os anos mais marcantes de sua carreira e se transformaria em ídolo. A torcida alvinegra buscava um herdeiro moral para a mística da lateral-esquerda, imortalizada por Nilton Santos. Marinho não tentou imitá-lo; escreveu sua própria história.
Sua estreia pelo Glorioso aconteceu em setembro de 1972, contra o America-RJ. Pouco tempo depois, em novembro do mesmo ano, protagonizou um duelo inesquecível contra o Santos pelo Campeonato Brasileiro. Sem demonstrar qualquer intimidação diante do Rei do Futebol, assustou o mundo ao aplicar um memorável "chapéu" (lençol) em Pelé em pleno Maracanã — lance que dominou no peito para dar sequência à jogada, levando a torcida ao delírio. O confronto terminou empatado em 1 a 1, e o respeito mútuo entre os dois craques selou o início da consolidação de Marinho como uma estrela nacional.
Rapidamente, o potiguar conquistou a torcida botafoguense. Seus longos cabelos loiros, a personalidade descontraída e o futebol vistoso fizeram nascer apelidos como "Bruxa", "Bruxa Loira" e "Diabo Loiro". Fora de campo, chamava atenção pelo gosto por roupas elegantes, correntes de ouro e pela vida social movimentada. Dentro das quatro linhas, porém, era extremamente competitivo e assumia a responsabilidade com coragem.
Entre 1972 e 1973, foi eleito o melhor lateral-esquerdo do Campeonato Brasileiro, conquistando duas Bolas de Prata da revista Placar. Na época, muitos especialistas consideravam seu futebol adiantado em relação ao tempo, antecipando características que décadas depois se tornariam padrão para os alas modernos.
As grandes atuações renderam a convocação para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Embora o Brasil tenha terminado na quarta colocação, Marinho foi um dos grandes destaques da competição e foi eleito o melhor lateral-esquerdo do Mundial pela imprensa internacional. No mesmo ano, ficou em segundo lugar na tradicional premiação de Melhor Jogador da América do Sul (promovida pelo jornal venezuelano El Mundo), atrás apenas do lendário zagueiro chileno Elías Figueroa.
Seu estilo ultraofensivo, entretanto, gerava debates táticos. Na disputa pelo terceiro lugar contra a Polônia, uma de suas subidas ao ataque deixou o setor desguarnecido para o avanço de Grzegorz Lato, autor do gol da vitória polonesa por 1 a 0. O episódio provocou uma forte discussão no vestiário com o goleiro Leão, que cobrava maior rigor defensivo do lateral. Ainda assim, a qualidade técnica e o desempenho individual de Marinho no torneio foram incontestáveis.
As exibições na Alemanha despertaram o interesse do Schalke 04. Apesar da proposta financeira vantajosa, Marinho optou por permanecer no Botafogo, motivado pelo desejo de continuar no futebol brasileiro e pelo nascimento de seu primeiro filho.
No Botafogo, permaneceu até 1977. Embora não tenha conquistado títulos oficiais de expressão pelo clube, tornou-se um dos maiores ídolos da história alvinegra graças ao futebol técnico, à personalidade cativante e à forte identificação com a torcida.
Pela Seleção Brasileira, disputou 36 partidas oficiais e marcou quatro gols, sendo campeão do Torneio Bicentenário dos Estados Unidos em 1976. No entanto, sua trajetória na Amarelinha teve interrupções marcantes. Trasferiu-se para o Fluminense em 1977 e, com a mudança na comissão técnica da Seleção comandada por Cláudio Coutinho — que priorizava um esquema tático com laterais mais defensivos —, acabou fora das Copas do Mundo de 1978 e 1982, decisão que o jogador abertamente considerou injusta ao longo da vida.
Após a passagem pelo Fluminense, transferiu-se para os Estados Unidos para jogar na North American Soccer League (NASL). No New York Cosmos, dividiu elenco com lendas como Franz Beckenbauer e Carlos Alberto Torres. Em seguida, defendeu o Fort Lauderdale Strikers, ao lado de nomes como Gerd Müller e Teófilo Cubillas, ajudando a popularizar o futebol no país.
O retorno ao Brasil aconteceu em 1981, contratado pelo São Paulo. Logo na primeira temporada, foi peça fundamental na conquista do Campeonato Paulista de 1981 e recebeu sua terceira Bola de Prata da revista Placar, comprovando que continuava no topo entre os laterais do país.
Nos anos seguintes, sua carreira entrou em fase de transição. Passou por clubes como Bangu, América de Natal e Fortaleza, retornou brevemente aos Estados Unidos para atuar pelo Los Angeles Heat e encerrou a carreira profissional em 1988, no Augsburg, da Alemanha.
Após pendurar as chuteiras, tentou a carreira como treinador no Alecrim, mas a experiência foi breve. Longe dos gramados, enfrentou severos problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Mesmo nos momentos difíceis, manteve o carinho dos torcedores em Natal, onde era visto com frequência caminhando pelas praias de Ponta Negra, conversando com admiradores e relembrando causos do futebol.
Marinho Chagas faleceu em 1º de junho de 2014, aos 62 anos, em decorrência de complicações provocadas por uma hemorragia digestiva. Sua morte ocorreu a poucos dias do início da Copa do Mundo no Brasil, exatamente quarenta anos após o torneio que o consagrou internacionalmente.
Seu legado, contudo, não se mede apenas por troféus. Em uma época em que os laterais tinham como função primária guardar posição na defesa, Marinho rompeu paradigmas. Atacava como ponta, chutava com potência de fora da área, cobrava faltas com precisão e transformava a lateral esquerda em um espaço de criação e espetáculo. A "Bruxa" potiguar deixou como herança um futebol corajoso, alegre e atemporal, garantindo seu lugar definitivo no panteão dos grandes nomes do futebol mundial.
CURIOSIDADES
Colecionador de Rádios:
Na sua época, o jogador eleito o melhor em campo pelas transmissões costumava ganhar um aparelho de rádio transistorizado. Marinho juntou 47 rádios ao longo da carreira, presenteando o primeiro deles à sua mãe em Natal.
"Roubou" a Falta de Jairzinho:
Em um jogo pelo Botafogo, o Furacão da Copa (Jairzinho) tomou distância para bater uma falta na entrada da área. Enquanto tomava impulso, Marinho veio de trás correndo e soltou um bomba no ângulo. Jairzinho ficou furioso, mas Marinho respondeu rindo: "O gol tá feito, deita aí!".
A Paradinha 360° no Fluminense: No Fluminense, inovou na cobrança de pênaltis inventando uma parada onde girava o próprio corpo em 360 graus em frente à bola antes de chutar para enganar os goleiros. Ele usou esse recurso em torneios internacionais e converteu todas as tentativas.
O Encontro com Grace Kelly:
Durante uma excursão do Fluminense pela Europa na década de 1970, o time participou de uma festa num castelo em Nice, na França. Marinho, vestindo black-tie pela primeira vez, tirou a Princesa de Mônaco (a ex-atriz Grace Kelly) para dançar com uma taça de champanhe na mão.
Samba na Concentração do Flu:
Irritava dirigentes ao levar instrumentos de percussão (pandeiros, chocalhos e tamborins) para as concentrações antes dos jogos, transformando a concentração em rodas de samba
Pioneiro no Estilo de Vida:
Muito antes do conceito de "metrossexualidade", Marinho usava secador de cabelo, correntes pesadas de ouro, óculos escuros de marca e dirigia carros conversíveis. Ele declarava abertamente que cuidava da aparência para os fotógrafos
O Soco de Leão :
A discussão no vestiário com o goleiro Leão após o jogo contra a Polônia na Copa de 1974 de fato terminou em agressão física. Os dois trocaram socos por conta do espaço deixado por Marinho na ponta esquerda
Treinador pelo Mundo (Pouco lembrado): Após se aposentar nos gramados, viveu experiências improváveis tentando a carreira de técnico no futebol de Malta e da Líbia, além dos Estados Unidos e do Alecrim-RN.
Fonte: Um Cadin De Café