"F. Savater"
" Descartes teria explicitado a cisão essencial: o lugar em que o sujeito pensa não é o lugar em que ele existe (é o que é considerado por alguns pensadores a respeito da frase). Aliás, se assim fosse, o "logo" não faria sentido. Se existir e pensar fossem um único movimento, seriam sinônimos. E, se fossem sinônimos, Descartes não teria chegado a lugar nenhum além daquele em que já se encontrava. Teria dito: " Penso,logo penso", ou " existo, logo existo". Ocorre que o "logo" de Descartes não é nulo. O pensador sabe de sua própria existência porque pensa: o existir decorre do pensar, mas, atenção, decorre em outro plano, em outro lugar. Para Descartes, nenhuma verdade terá antecedência sobre o pensamento que declara a existência daquele mesmo que pensa.Ele estabelece a mão dupla entre o pensar e o existir, mas dá a primazia ao pensar. Descartes não inventou a divisão corpo-alma; o que ele percebeu, no entanto, foi a divisão entre o pensar e o existir.E, para dar lugar a um e a outro, pôs o pensar, na alma, e deixou existir no corpo mesmo. Mas o que ocorre é a divisão do sujeito: um é o sujeito que pens, outro distinto, é o sujeito que existe'. CHICO TORQUATO
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