quinta-feira, julho 25

A FUNÇÃO DO ESCRITOR

 






Autor: Anton Tchekhov 


          " Que o mundo" está infestado com a escória do gênero humano é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura seja a de separar o trigo do joio e rejeitar a própria literatura.

            A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu destino é a verdade incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e pela sua consciência. Para um químico,   nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objetivo como um químico.

            Parece-me  que o escritor não devia tentar resolver questões como a da existência de Deus, do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não devia ser Juiz das suas personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.

            Tem razão em exigir que um artista deve ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundam duas coisas. Resolver um problema e enunciar corretamente um problema. Para o artista, só a segunda é obrigatória.

            Acusam-me de ser objetivo, chamando-lhe indiferença em relação ao bem e o mal, falta de ideias e de ideais,  etc. Quem que ao descrever ladrões de cavalos, diga "roubar cavalos é meu." Mas isso é sabido há séculos, sem que  tenha de dizer. Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que o gênero de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas sim gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é um simples roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar até sermões, mas quanto a mim, é impossível por questões técnicas.

            Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir a maneira deles. De outro modo a história não será tão compacta como os contos devem ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que acrescente a história os elementos subjetivos que lhe faltam.

CHICO TORQUATO

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