sábado, janeiro 31

EDITORIAL: ÉTICA PÚBLICA COMO CRITÉRIO ELEITORAL



O calendário eleitoral impõe ao eleitor uma tarefa que vai além da comparação de propostas e discursos. Em um ambiente institucional que voltou a ser marcado pela recorrência de investigações, operações policiais e questionamentos sobre a gestão de recursos públicos, a avaliação da conduta de quem disputa o voto torna-se um elemento central do processo democrático.

Nos últimos anos, multiplicaram-se episódios envolvendo suspeitas de irregularidades na administração pública. Operações policiais relacionadas ao uso de emendas parlamentares, apreensões de dinheiro em espécie e relações pouco transparentes entre agentes públicos e interesses privados deixaram de ser fatos isolados. Casos semelhantes surgem em diferentes estados e em diversos níveis de governo, indicando um padrão que merece atenção.

O episódio recente envolvendo a gestão de Mossoró, assim como o caso do Banco Master, inserem-se nesse contexto, independente dos valores eventualmente envolvidos. As conclusões jurídicas cabem às instâncias competentes, mas ao eleitor cabe evitar que a sucessão desses fatos produza a banalização. Quando situações dessa natureza se acumulam, o debate público tende a tratá-las como parte do funcionamento normal do sistema, reduzindo seu impacto e diluindo responsabilidades, gerando um ciclo que se retroalimenta.

Essa naturalização do desvio tem consequências diretas para a própria democracia. Enfraquece a confiança nas instituições, desestimula o controle social e reforça a percepção de que práticas questionáveis são toleradas desde que politicamente convenientes. Trata-se de um custo institucional elevado, frequentemente subestimado no debate eleitoral.

Em um ano em que estarão em disputa cargos estratégicos que vão da Presidência da República aos governos estaduais, passando pela escolha de senadores e deputados, critérios como moralidade administrativa, transparência e compromisso com o interesse público não devem ser tratados como acessórios. A trajetória dos candidatos, sua atuação diante de crises e sua relação com estruturas de poder devem ser elementos objetivos de avaliação por parte do eleitor.

Também merece atenção a forma como gestores estruturam suas equipes. Não basta a um gestor descentralizar as decisões como se assim sua responsabilidade fosse menor. A escolha de assessores e auxiliares é parte indissociável do exercício do poder. Quadros mal selecionados, sem critérios técnicos ou éticos consistentes, tendem a gerar instabilidade administrativa e ampliar riscos institucionais. Ainda que não haja responsabilização penal, há sempre uma responsabilidade política envolvida.

O voto não deve ser um gesto automático, nem deve estar submisso ao conformismo. Quanto maiores os questionamentos éticos, maior deve ser a atenção e o discernimento do eleitor. Avaliar comportamentos, e não apenas promessas, é uma condição necessária para preservar a integridade da vida pública e a credibilidade das instituições democráticas.

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