sábado, janeiro 24

A última eleição indireta para governador do RN consolidou a oligarquia Maia no poder por meio de um acordão com os Alves


Última eleição indireta escolheu Lavoisier Maia (Foto: reprodução)

Enquanto o Rio Grande do Norte se prepara para uma inédita eleição indireta em abril de 2026, os livros de história nos levam a um cenário bem diferente, mas com sobrenomes ainda muito familiares.

A última vez que o governador do RN foi escolhido através de um voto que não veio das urnas populares foi em 1º de setembro de 1978.

Naquela época, o estado não vivia uma vacância de cargos por renúncia, como a que se desenha com as saídas de Fátima Bezerra e Walter Alves. O motivo era o “Pacote de Abril”, um conjunto de decretos do ditador Ernesto Geisel que garantia que o regime militar mantivesse o controle dos estados sem o risco de derrotas eleitorais.

Em 1978, a eleição não aconteceu no plenário da Assembleia Legislativa como ocorrerá daqui a três meses. Ela foi decidida em um Colégio Eleitoral robusto, composto por deputados estaduais e delegados das Câmaras Municipais.

A articulação foi cirúrgica. O então governador Tarcísio Maia (pai de José Agripino Maia), um dos homens mais influentes do estado, convenceu o homem forte de Geisel, o general Golbery do Couto e Silva, de que o nome ideal para a sucessão era seu primo, o médico Lavoisier Maia.

O ex-prefeito de Mossoró e ex-senador Dix-huit Rosado sonhava com o cargo que já tinha tentando em 1970 e 1974 (outras duas eleições indiretas), mas não houve prévias, nem debates públicos. A ordem veio de Brasília e a bancada da ARENA, partido de sustentação do regime, apenas cumpriu o script.

“Paz Pública” 

Para suavizar a imagem de um governo imposto, a articulação trouxe uma surpresa: Geraldo Melo foi indicado para vice-governador. Geraldo tinha origens no grupo político de Aluízio Alves, o maior rival dos Maia, e sua presença na chapa simbolizava uma tentativa de união das elites políticas em torno do projeto militar.

Foi um acordão que uniu Alves e Maia, as duas oligarquias que disputavam o poder no Rio Grande do Norte. O acordão foi apelidado de “Paz Pública” e envolveu a eleição de Jessé Freire para o Senado, pela ARENA com apoio dos Alves.

A oposição, liderada pelo MDB, sabia que a derrota era certa. Dos 324 integrantes do Colégio Eleitoral, 311 compareceram. Lavoisier foi eleito com 293 votos. Os 18 votos em branco registrados naquela tarde foram o gesto de resistência de parlamentares como o jovem Garibaldi Alves Filho, que denunciavam o que chamavam de “farsa democrática”.

O Contraste: 1978 vs. 2026

Embora o mecanismo seja o mesmo — o voto indireto —, o abismo entre as duas épocas é enorme:

  • Em 1978, a eleição indireta era a ferramenta de uma ditadura para impedir a alternância de poder. Lavoisier governou por quatro anos completos.
  • Em 2026, a eleição indireta é o remédio da democracia para evitar um vácuo de poder. O eleito será um “governador-tampão” com apenas nove meses de mandato.

Se em 1978 o resultado era conhecido com meses de antecedência, o cenário atual é de incerteza total. Em 78, a família Maia mandava e Brasília desmandava.

Em 2026, o destino do Rio Grande do Norte está nas mãos de 24 deputados estaduais que, em voto secreto, decidirão se mantêm o projeto do PT ou se entregam as chaves do estado à oposição liderada por Rogério Marinho e o grupo de Allyson Bezerra.

Fonte: Blog Bruno Barreto 

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