domingo, outubro 4

Natal e Mossoró nem sempre votam juntas para governador do RN

​Imagem: reprodução

As duas maiores cidades do Rio Grande do Norte nem sempre seguiram o mesmo caminho nas eleições para governador.

Um cruzamento da votação em Natal e Mossoró nas eleições realizadas entre 1994 e 2022 revela diferenças importantes no comportamento eleitoral das duas cidades e mostra que ganhar uma delas (mesmo por ampla margem) nunca foi condição obrigatória para conquistar o Governo do Estado.

Considerando o turno decisivo de cada eleição, o quadro é o seguinte:

AnoVencedor no RNVencedor em NatalVencedor em Mossoró
1994GaribaldiGaribaldi — 56,26%Lavoisier — 50,01%
1998GaribaldiGaribaldi — 49,65%Garibaldi — 47,29%
2002WilmaWilma — 72,98%Wilma — 58,94%
2006WilmaWilma — 52,44%Garibaldi — 59,04%
2010RosalbaRosalba — 39,19%Rosalba — 84,93%
2014RobinsonRobinson — 52,02%Robinson — 71,66%
2018FátimaCarlos Eduardo — 60,76%Fátima — 54,17%
2022FátimaFátima — 49,93%Fátima — 60,67%

O levantamento começa em 1994 porque é a partir daí que a desagregação municipal da série histórica consultada permite uma comparação sistemática entre as duas cidades.

Em 1994, Mossoró ficou contra o resultado estadual

A primeira eleição da comparação já mostra que as duas cidades podiam caminhar em direções diferentes.

Garibaldi Alves Filho venceu o Rio Grande do Norte no primeiro turno com 52,67%.

Natal contribuiu para essa vitória: Garibaldi conseguiu 122.196 votos, ou 56,26%.

Mossoró, entretanto, preferiu Lavoisier Maia.

Lavoisier obteve 32.805 votos na cidade, equivalentes a 50,01%, enquanto Garibaldi recebeu 25.661.

Quatro anos depois, o cenário mudou. Garibaldi venceu tanto Natal quanto Mossoró e conquistou a reeleição.

Wilma constrói uma enorme vantagem em Natal em 2002

Uma das maiores diferenças da série ocorreu em 2002.

No segundo turno contra Fernando Freire, Wilma de Faria conquistou impressionantes 72,98% dos votos válidos de Natal: 242.417 votos.

Fernando Freire ficou com 89.758.

Wilma também ganhou em Mossoró, mas com vantagem proporcionalmente menor: 58.239 votos, ou 58,94%, contra 40.579 de Freire.

A eleição terminou com Wilma eleita governadora com 61,05% dos votos válidos do Estado.

Em 2006, Natal e Mossoró ficam em lados opostos

Quatro anos depois ocorreu uma divisão clara.

Wilma venceu Garibaldi Alves em Natal:

Wilma — 52,44%
Garibaldi — 47,56%

Mossoró fez a opção inversa:

Garibaldi — 59,04%
Wilma — 40,96%

A diferença mostra que Wilma conseguiu ser reeleita governadora mesmo sofrendo uma derrota de aproximadamente 18 pontos percentuais na segunda maior cidade do Estado.

Rosalba produz resultado excepcional em Mossoró

Nenhuma eleição da série mostra uma diferença tão grande entre Natal e Mossoró para o mesmo candidato quanto 2010.

Rosalba Ciarlini recebeu 39,19% dos votos válidos de Natal.

Em Mossoró, sua principal base política, alcançou 84,93%.

Foram 98.964 votos para Rosalba somente em Mossoró.

A distância entre seu desempenho proporcional nas duas cidades chegou a 45,74 pontos percentuais.

Rosalba venceu o Estado no primeiro turno com 52,52%.

O resultado mostra o peso extraordinário que sua base mossoroense teve naquela eleição, embora sua vitória estadual evidentemente dependesse também dos votos obtidos nas demais regiões.

Mossoró dá 71,66% a Robinson

A eleição seguinte manteve Mossoró muito acima da média estadual na votação do candidato vencedor.

Robinson Faria derrotou Henrique Alves no segundo turno de 2014 por 54,42% a 45,58%.

Natal apresentou resultado próximo ao estadual:

Robinson — 52,02%
Henrique — 47,98%

Mossoró foi muito diferente:

Robinson — 71,66%
Henrique — 28,34%

Foram 79.619 votos para Robinson contra 31.484 para Henrique.

Enquanto Robinson abriu pouco mais de quatro pontos percentuais de vantagem em Natal, em Mossoró a diferença superou 43 pontos.

2018 produz a maior ruptura entre Natal e Mossoró

Se 2006 colocou as duas cidades em campos diferentes, 2018 repetiu a situação de forma ainda mais evidente.

Carlos Eduardo Alves, ex-prefeito da capital, dominou a eleição em Natal.

Recebeu 254.199 votos, ou 60,76%.

Fátima Bezerra ficou com 164.135, correspondentes a 39,24%.

Em Mossoró ocorreu o contrário.

Fátima venceu com 68.713 votos e 54,17%, enquanto Carlos Eduardo teve 58.145 e 45,83%.

O resultado estadual terminou muito mais próximo do comportamento de Mossoró do que do da capital: Fátima foi eleita com 57,60% dos votos válidos.

Assim, Fátima chegou ao Governo do Estado mesmo perdendo Natal por mais de 90 mil votos.

Quatro anos depois, Fátima vence nas duas

A eleição de 2022 alterou novamente o mapa.

Fátima passou de 39,24% em Natal no segundo turno de 2018 para 49,93% no primeiro turno de 2022, ficando à frente dos demais candidatos na capital.

Em Mossoró, chegou a 60,67%, com 78.429 votos.

Fábio Dantas obteve 15,13% em Mossoró e Styvenson Valentim, 18,56%.

Fátima terminou reeleita no primeiro turno em todo o Rio Grande do Norte, com 1.066.496 votos.

Natal acompanhou mais vezes o vencedor estadual

Considerando as oito eleições entre 1994 e 2022, Natal deu a maior votação ao candidato que terminou governador em sete ocasiões.

A exceção foi 2018, quando Carlos Eduardo venceu na capital e Fátima venceu no Estado.

Mossoró coincidiu com o vencedor estadual em seis das oito eleições.

As exceções foram 1994, quando Lavoisier venceu na cidade e Garibaldi levou o Estado, e 2006, quando Garibaldi ganhou em Mossoró, mas Wilma foi reeleita governadora.

Mossoró apresenta resultados mais extremos

Outro fenômeno aparece quando se observa não apenas quem ganhou, mas o tamanho das vantagens.

Mossoró registrou três votações muito expressivas para candidatos vencedores:

Rosalba — 84,93% em 2010
Robinson — 71,66% em 2014
Fátima — 60,67% em 2022

Natal teve seu resultado mais desequilibrado da série em 2002, quando Wilma conquistou 72,98% contra Fernando Freire.

A comparação também mostra a velocidade das mudanças no comportamento eleitoral mossoroense.

Em apenas oito anos, a cidade passou de 84,93% para Rosalba em 2010, uma candidatura associada à tradição política local, para 71,66% para Robinson Faria em 2014 e, posteriormente, deu maioria a Fátima Bezerra em 2018 e 2022.

As duas maiores cidades não determinam sozinhas a eleição

Talvez a principal conclusão histórica seja justamente que nenhuma das duas cidades funciona isoladamente como uma espécie de prévia obrigatória do resultado estadual.

Garibaldi venceu em 1994 perdendo Mossoró.

Wilma venceu em 2006 perdendo Mossoró.

Fátima venceu em 2018 perdendo Natal, e por larga margem.

Ao mesmo tempo, as diferenças entre as duas maiores cidades revelam parte da geografia política do Rio Grande do Norte.

Natal apresentou, em vários pleitos, resultados mais próximos da média estadual. Mossoró produziu algumas das maiores concentrações de votos em torno de uma candidatura, como ocorreu com Rosalba em 2010 e Robinson em 2014.

O cruzamento das urnas mostra, sobretudo, que Natal e Mossoró nem sempre falaram a mesma língua na hora de escolher o governador, e que o caminho para chegar ao Governo do Rio Grande do Norte passa por uma geografia eleitoral muito mais ampla do que suas duas maiores cidades.

Fonte:Blog Bruno Barreto 

Nenhum comentário:

Postar um comentário